LITERATURA ÚTIL
Um estudo sobre três textos de ficção libertária 1900-1902    

Claudia F. B. Leal
é aluna de Mestrado
em Teoria Literária
no IEL - Unicamp.

I. INTRODUÇÃO

"Que poetas subam com seus instrumentos para cantar a beleza, espreitando as rosadas nuvens: é talvez sua missão. Porém, nós, pensadores, temos que descer até o povo rude da alta ou da baixa sociedade, pois todos são iguais... para fazê-los dar um passo mais em sua elevação espiritual."

 Maria Lacerda de Moura 

 
 

 Apesar de não se considerar uma militante anarquista , Maria Lacerda de Moura revela preocupações que se confundem com as linhas mestras do movimento libertário brasileiro do começo do século. O trecho citado traduz com clareza o papel que a direção do movimento operário de tendência anarquista  auto-concedia-se, no sentido de se opor a uma expressão artística descompromissada, não engajada e que não revelasse os ideais por que lutava tal movimento. Por outro lado, defendia-se a produção de uma "literatura útil", termo utilizado por Curvello de Mendonça  para caracterizar sua própria obra:
 

"Escrevendo sem ambicionar triunfos, procurando apenas enveredar pela trilha de uma literatura útil, quero dizer, de um exercício intelectual aplicado às necessidades sociais, tive a felicidade de receber a simpatia e o estímulo em proporção tal que jamais poderia imaginar." 


 

 
 Tal termo não estava restrito à obra desse escritor; antes, correspondia a um "gênero literário" que se estava estabelecendo e que englobava também, conforme realça Luizetto, outros textos que "deveriam suscitar nos leitores certos sentimentos e provocar comportamentos ajustados às necessidades do processo da construção da nova sociedade, ácrata, naturalmente, e comunista, preferentemente."  Pode-se notar aí a importância de um viés educativo; uma forte questão pragmática colocava-se nessa literatura, no sentido de vir a formar os homens para a sociedade vindoura. O papel do poeta que criava textos para deleite e fruição na leitura não era apreciado nos meios libertários. A divulgação da doutrina anarquista era indispensável para determinar a relevância de um texto literário nesse meio político e cultural.

 Deve-se atentar aqui para um posicionamento bastante singular frente às artes em geral e à literatura em particular. As questões estéticas passavam necessariamente, dentro da concepção libertária de arte, pela abordagem de temas caros ao movimento operário, tais como organização da sociedade futura, exploração dos trabalhadores, condição de vida precária dos mesmos, sublevação contra a sociedade autoritária, esperança revolucionária. Assim, para que se possa melhor entender essa produção artística libertária, é importante que se tenha em mente o pragmatismo doutrinário norteador de suas manifestações.

 A própria preocupação com a educação no sentido mais escolar apontava para essa direção. O movimento operário, principalmente o setor liderado pelos seus militantes anarquistas, foi responsável pelo estabelecimento de uma quantidade considerável de Escolas Modernas para crianças e mesmo da Universidade Popular de Ensino Livre . O lema positivista de "saber é poder" embasava boa parte da concepção política e cultural libertária; o conhecimento e a consciência da realidade pareciam ser as únicas alternativas para se alcançar a sociedade desejada.

 Juntamente com a direção do movimento, alguns operários pareciam também estar conscientes da relevância da educação. Antonio Candido escreve sobre um anarquista português, Adelino Tavares de Pinho, que militava na cidade de Campinas, São Paulo, e que "fora motorneiro, e analfabeto até a idade adulta. Instruindo-se por conta própria, graças à intensa paixão cultural dos meios anarquistas, tornou-se relativamente bem informado, como se vê pelos numerosos artigos e alguns folhetos que escreveu." Um outro exemplo é o que aparece em um manifesto das costureiras de São Paulo pela redução da jornada de trabalho - então de 16 horas:
 

"Como se pode estudar ou ler um livro iniciando o trabalho às 7 horas e retornando às 11 da noite? Das 24 horas só nos ficam 8 para repousar, insuficientes para recuperar no sono as forças exaustas!" 
 

 O lazer era uma atividade rara para os operários paulistanos do começo do século. Como mostra o manifesto referido acima, o trabalho era excessivo e pouco tempo livre sobrava para a instrução, descanso ou divertimento. As festas operárias surgiam para ocupar algumas dessas horas de folga dos trabalhadores e, nesse espaço, podiam-se encontrar as peças teatrais de tom libertário. Estas pareciam agradar imensamente o público de tais festividades e a direção do movimento, ciente disso, não deixava de aproveitar o meio para divulgar suas idéias:
 

"Não resta a menor dúvida de que o teatro é um meio eficientíssimo para educar as massas. A história da arte dramática nos ensina que em todos os tempos, em todos os povos, pessoas com real capacidade serviram-se do palco para infundir no povo, sentimentos de amor ao bem, à liberdade, ao sacrifício, ao altruísmo.
Ora, não nos admiremos com os que procuram difundir novos princípios de uma moral verdadeiramente socialista e libertária usando as recitações, as dramatizações, obtendo prosélitos para  idéias que custam tanto a vingar, impedidas pelos que vêem na sua implantação, o ocaso da exploração desumana." 
 

 Se por um lado a literatura apresentava-se como um meio profícuo para a divulgação dos ideais do movimento operário, por outro, mostrava-se susceptível a ser usada para fins nada apreciados pelos libertários. É o que mostra a discussão apresentada por Domingos Ribeiro Filho  sobre a influência negativa da literatura em relação à posição da mulher na sociedade. Segundo ele, "os literatos, romancistas e poetas começaram a explorar a concuspicência, a imoralidade e a luxúria que eles chamam amor. E, naturalmente, como nas relações entre senhor e escrava só pode haver obscenidade, os homens de talento produziram montanhas de livros onde a patologia mundana do amor é rebuscada ao mais íntimo e profundo limite."  Não obstante a critica aos possíveis efeitos degradantes que a literatura poderia causar, e talvez motivado precisamente por esta, Domingos Ribeiro Filho ocupou-se justamente da produção de prosa de ficção. Esta, entretanto, abordava o tema da mulher na sociedade e suas relações com o homem - companheiro ou "explorador" -, de forma a deixar claro que era imperativo repensar a condição feminina, caso se estivesse verdadeiramente almejando uma mudança na sociedade. Maria Lacerda de Moura compartilhava das idéias desse seu contemporâneo e, sobre o artigo "O veneno literário" escrito pelo mesmo, comentou:
 

"Porque a verdade é que a literatura é um veneno e o mandonismo, um edema sintomático desse veneno. De inteiro acordo(...) E nós que só conhecemos o Para Todos, a Cena Muda e só nos preocupamos com os Tom Mix e congêneres Bertini e etc, com as corridas de cavalos, o 'foot-ball' e o jogo do bicho - como fazer essa transição? (...)
Dos romancinho franceses ou das aventuras policiais, a menina passou às notícias dos casamentos e divórcios de Carlitos, às fugas das provincianas se fazendo estrelas, assuntos teatrais idealizados pelos empresários ávidos de dinheiro, para atrair a atenção da imaginação rocambolesca das mulheres em geral e dos medíocres." 
 

 Nota-se que tais escritos não se resumem a fazer uma (dura) crítica à literatura descompromissada, mas a toda e qualquer expressão de cultura que desviasse as massas do caminho da instrução libertária. O próprio lazer era por vezes visto como um momento potencialmente alienante, caso não fosse empregado em manifestações e agremiações da classe. Na passagem acima, cinema, "foot-ball" e jogo do bicho são atacados; a idéia que se tem do baile, por sua vez, apesar de ser este uma atividade comum nas festas e festivais operários, parece apontar para o mesmo sentido de tais críticas. No artigo abaixo, percebem-se as objeções feitas a ele, assim como elementos que apontam para a concepção de moralidade dos libertários:
 

"a)[o baile] É instrutivo? Cremos que não. 1o  porque não é ginástico, 2o porque só serve para manter os sentidos excitados.
b)É higiênico? Optamos pela negativa, por motivos óbvios.
c)É moral? Temos a este respeito exemplos de bailes públicos, nas freqüentes questões que se dão nos bailes dos clubes recreativos. E depois, para não ir mais longe, há muitos pais que levam ali suas filhas como a um mercado. Não existe lugar ou ensejo mais favorável à corrupção. As moças, convidadas pelos 'cavalheiros', vão beber (uma noite inteira sem isso não se passa) um cálice deste, outro daquele, e assim acabam por embriagar-se, como fazem os genitores, engodados pelos pretendentes das filhas.
E isso para provar, cremos, que o baile facilita a degeneração e a imoralidade e que não é instrutivo nem moral, se é moral tudo que aperfeiçoa e regenera a massa proletária." 
 

 Não se pode deixar de perceber aí "o contraste entre a retórica  iconoclasta e a vida incensurável, pequeno-burguesa (com o perdão da palavra), dessa gente".  Uma forte característica do movimento operário é a preocupação com um proceder correto, moral, adequado a uma idéia própria de honestidade e lisura. Da mesma forma que fez Boris Fausto, é irresistível pensar em uma confluência com ideais "pequeno-burgueses" de comportamento, no sentido de se condenar a bebida, a prostituição, valorizar o núcleo familiar - ainda que se defendessem as uniões livres. A oposição às "classes dominantes" dava-se por outros canais - por exemplo, o combate à propriedade privada, às religiões de qualquer tendência, a toda organização governamental e de autoridade.

 Ainda nesse sentido, Francisco Foot Hardman  discute a relação por vezes paradoxal entre os operários e seus "oponentes", ou seja, o governo e as classes detentoras do poder político e econômico. Pode-se observar, junto aos primeiros, uma busca de respeitabilidade de sua postura, organização e expressões culturais, frente ao desprezo daqueles últimos. O movimento libertário proclamava a ordem de seus atos, a grandeza de seus ideais e de seus discursos. Nesse paradoxo de posições frente a expressões "burguesas" de cultura, pode-se entender, por exemplo, a adoção de um jargão parnasiano na literatura operária - ficcional ou não. Segundo afirma Foot, "o uso do estilo elevado, combinado com a grandeza dos ideais proclamados, é também uma maneira de ocupar o código das classes dominantes" . 

 "Ocupar o código das classes dominantes": essa questão era bastante importante na discussão da cultura anarquista e operária nos primeiros anos do século. Havia uma constante tensão entre o discurso da direção do movimento e o da "classe dominante". Tal tensão dava-se principalmente entre as idéias de assimilação ou separatismo em relação a esse último. Para preservar sua cultura, os operários deviam mantê-la, a princípio, afastada da dos que os excluíam; ao mesmo tempo, a cultura dominante acabava por se tornar um modelo, e os trabalhadores tendiam a aspirá-la, em uma busca de respeitabilidade. O tom parnasiano de muitos textos libertários vai nesse sentido, e Foot, para explicar a contradição aparente entre a forma do discurso do movimento operário e sua posição em relação a influências "burguesas", tece uma bela comparação do estilo adotado pelos trabalhadores anarquistas com o vulcão:
 

"Essa contradição entre os cimos do monte Parnaso, onde tremula a Idéia, a Palavra que guarda as portas do palácio da anarquia e, por outro lado a voz subterrânea das massas, o rumor incontrolável da energia represada no centro da Terra, pode ser muito bem sintetizada pela imagem do vulcão: pois este é uma montanha especial que, tendo a veleidade de chegar às neves eternas da pureza da forma, é, ao mesmo tempo, canal para as turbulentas impurezas lá de baixo; o discurso anarquista pretendeu, sempre, ser a cratera mais alta que expelisse a fome e a fúria mais profunda; uma erupção vulcânica que atingisse as nuvens e derretesse as neves, repondo as coisas e os homens em novo equilíbrio." 
 

 Os pontos discutidos acima indicam algumas das características dominantes da cultura operária anarquista nos primeiros anos deste século. As questões levantadas, entretanto, não se esgotam no que foi dito até aqui, nem são as únicas relevantes para o estudo da produção literária dos libertários.

 No interior da vasta literatura veiculada na imprensa operária paulistana, escolheram-se três textos publicados nos três primeiros anos do século XX que parecem abrir espaço para discussões de pontos bastante pertinentes para esse estudo. É importante salientar ainda que os anos de publicação dos textos a serem analisados e que são indicados aqui não são necessariamente os anos de sua produção. Datá-los, no contexto em que se está propondo essa discussão, significa tão somente entender quando eles estavam circulando na cidade de São Paulo e entre o público operário paulistano. Estabelecer autoria, momento da escrita é também questão secundária nessa análise, uma vez que se está privilegiando o local de sua publicação, ou seja, onde se acredita ocorrer o encontro desses textos com o leitor trabalhador: a imprensa operária paulistana, ou, mais precisamente, O Grito do Povo, Palestra Social e O Amigo do Povo, jornais que serviram de fonte para esta discussão.

 É interessante, ainda, pensar em algumas questões sobre os gêneros literários no seio da imprensa e do movimento operários. A escolha restrita aos textos em prosa aqui feita não foi arbitrária, mas sim motivada pelo material encontrado nos jornais a que se teve acesso.   Da mesma forma, em Contos anarquistas - Antologia da prosa libertária no Brasil (1901-1935) , a escolha dos autores pela prosa deveu-se ao fato, explicitado por eles, de que, na literatura libertária, o gênero que melhor prestou-se às intenções do movimento foram o conto e o relato breve, o qual incluia "a crônica, o depoimento, as fábulas, os diálogos dramatizados, etc." . Na narrativa libertária, o que se impunha era "o registro da opressão cotidiana que transforma a palavra em instrumento de sobrevivência, experimentando a narrativa curta na percepção do flagrante".  Neste contexto, apesar de se poderem encontrar alguns romances de temática social e libertária, deve-se pensar antes nas narrativas mais breves como o gênero de maior força da ficção anarquista.
 
  II. "A ESTRANGULADORA DE SEUS FILHOS" - INFANTICÍDIO, PROSTITUIÇÃO E A CONDIÇÃO FEMININA    

 O conto "A estranguladora de seus filhos" , quando  publicado n'O Grito do Povo - jornal operário paulistano cujo  cabeçalho traz os escritos "Semanario Socialista Revolucionario" - não era inédito na imprensa proletária internacional, nem tão pouco brasileira. O texto é, na verdade, uma tradução de um conto publicado no Almanaque de la Questione Sociale, segundo se lê no próprio periódico brasileiro. Quanto à imprensa brasileira, o carioca O Protesto - Periódico Anarchista, de abril de 1900, já havia publicado "A estranguladora de seus filhos".

 Tal republicação - primeiramente de um país para outro, depois de uma cidade  para outra - é bastante relevante para apontar o intercâmbio ou permuta de periódicos  que acontecia dentro do movimento operário. Aliado a isso, percebe-se que se tem aí um texto que de alguma forma agradou à direção dos jornais e/ou ao público leitor destes. O tema do infanticídio presentado nele talvez esteja relacionado com o apreço que tais periódicos parecem dedicar ao conto.