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LITERATURA
ÚTIL Claudia
F. B. Leal |
I. INTRODUÇÃO
Apesar de não se considerar
uma militante anarquista , Maria Lacerda de Moura revela preocupações
que se confundem com as linhas mestras do movimento libertário brasileiro
do começo do século. O trecho citado traduz com clareza o papel que a
direção do movimento operário de tendência anarquista auto-concedia-se,
no sentido de se opor a uma expressão artística descompromissada, não
engajada e que não revelasse os ideais por que lutava tal movimento. Por
outro lado, defendia-se a produção de uma "literatura útil",
termo utilizado por Curvello de Mendonça para caracterizar sua própria
obra:
Deve-se atentar aqui para um posicionamento bastante singular frente às artes em geral e à literatura em particular. As questões estéticas passavam necessariamente, dentro da concepção libertária de arte, pela abordagem de temas caros ao movimento operário, tais como organização da sociedade futura, exploração dos trabalhadores, condição de vida precária dos mesmos, sublevação contra a sociedade autoritária, esperança revolucionária. Assim, para que se possa melhor entender essa produção artística libertária, é importante que se tenha em mente o pragmatismo doutrinário norteador de suas manifestações. A própria preocupação com a educação no sentido mais escolar apontava para essa direção. O movimento operário, principalmente o setor liderado pelos seus militantes anarquistas, foi responsável pelo estabelecimento de uma quantidade considerável de Escolas Modernas para crianças e mesmo da Universidade Popular de Ensino Livre . O lema positivista de "saber é poder" embasava boa parte da concepção política e cultural libertária; o conhecimento e a consciência da realidade pareciam ser as únicas alternativas para se alcançar a sociedade desejada. Juntamente com a direção
do movimento, alguns operários pareciam também estar conscientes da relevância
da educação. Antonio Candido escreve sobre um anarquista português, Adelino
Tavares de Pinho, que militava na cidade de Campinas, São Paulo, e que
"fora motorneiro, e analfabeto até a idade adulta. Instruindo-se
por conta própria, graças à intensa paixão cultural dos meios anarquistas,
tornou-se relativamente bem informado, como se vê pelos numerosos artigos
e alguns folhetos que escreveu." Um outro exemplo é o que aparece
em um manifesto das costureiras de São Paulo pela redução da jornada de
trabalho - então de 16 horas:
O lazer era uma atividade
rara para os operários paulistanos do começo do século. Como mostra o
manifesto referido acima, o trabalho era excessivo e pouco tempo livre
sobrava para a instrução, descanso ou divertimento. As festas operárias
surgiam para ocupar algumas dessas horas de folga dos trabalhadores e,
nesse espaço, podiam-se encontrar as peças teatrais de tom libertário.
Estas pareciam agradar imensamente o público de tais festividades e a
direção do movimento, ciente disso, não deixava de aproveitar o meio para
divulgar suas idéias:
Se por um lado a literatura
apresentava-se como um meio profícuo para a divulgação dos ideais do movimento
operário, por outro, mostrava-se susceptível a ser usada para fins nada
apreciados pelos libertários. É o que mostra a discussão apresentada por
Domingos Ribeiro Filho sobre a influência negativa da literatura
em relação à posição da mulher na sociedade. Segundo ele, "os literatos,
romancistas e poetas começaram a explorar a concuspicência, a imoralidade
e a luxúria que eles chamam amor. E, naturalmente, como nas relações entre
senhor e escrava só pode haver obscenidade, os homens de talento produziram
montanhas de livros onde a patologia mundana do amor é rebuscada ao mais
íntimo e profundo limite." Não obstante a critica aos possíveis
efeitos degradantes que a literatura poderia causar, e talvez motivado
precisamente por esta, Domingos Ribeiro Filho ocupou-se justamente da
produção de prosa de ficção. Esta, entretanto, abordava o tema da mulher
na sociedade e suas relações com o homem - companheiro ou "explorador"
-, de forma a deixar claro que era imperativo repensar a condição feminina,
caso se estivesse verdadeiramente almejando uma mudança na sociedade.
Maria Lacerda de Moura compartilhava das idéias desse seu contemporâneo
e, sobre o artigo "O veneno literário" escrito pelo mesmo, comentou:
Nota-se que tais escritos
não se resumem a fazer uma (dura) crítica à literatura descompromissada,
mas a toda e qualquer expressão de cultura que desviasse as massas do
caminho da instrução libertária. O próprio lazer era por vezes visto como
um momento potencialmente alienante, caso não fosse empregado em manifestações
e agremiações da classe. Na passagem acima, cinema, "foot-ball"
e jogo do bicho são atacados; a idéia que se tem do baile, por sua vez,
apesar de ser este uma atividade comum nas festas e festivais operários,
parece apontar para o mesmo sentido de tais críticas. No artigo abaixo,
percebem-se as objeções feitas a ele, assim como elementos que apontam
para a concepção de moralidade dos libertários:
Não se pode deixar de perceber aí "o contraste entre a retórica iconoclasta e a vida incensurável, pequeno-burguesa (com o perdão da palavra), dessa gente". Uma forte característica do movimento operário é a preocupação com um proceder correto, moral, adequado a uma idéia própria de honestidade e lisura. Da mesma forma que fez Boris Fausto, é irresistível pensar em uma confluência com ideais "pequeno-burgueses" de comportamento, no sentido de se condenar a bebida, a prostituição, valorizar o núcleo familiar - ainda que se defendessem as uniões livres. A oposição às "classes dominantes" dava-se por outros canais - por exemplo, o combate à propriedade privada, às religiões de qualquer tendência, a toda organização governamental e de autoridade. Ainda nesse sentido, Francisco Foot Hardman discute a relação por vezes paradoxal entre os operários e seus "oponentes", ou seja, o governo e as classes detentoras do poder político e econômico. Pode-se observar, junto aos primeiros, uma busca de respeitabilidade de sua postura, organização e expressões culturais, frente ao desprezo daqueles últimos. O movimento libertário proclamava a ordem de seus atos, a grandeza de seus ideais e de seus discursos. Nesse paradoxo de posições frente a expressões "burguesas" de cultura, pode-se entender, por exemplo, a adoção de um jargão parnasiano na literatura operária - ficcional ou não. Segundo afirma Foot, "o uso do estilo elevado, combinado com a grandeza dos ideais proclamados, é também uma maneira de ocupar o código das classes dominantes" . "Ocupar o código
das classes dominantes": essa questão era bastante importante na
discussão da cultura anarquista e operária nos primeiros anos do século.
Havia uma constante tensão entre o discurso da direção do movimento e
o da "classe dominante". Tal tensão dava-se principalmente entre
as idéias de assimilação ou separatismo em relação a esse último. Para
preservar sua cultura, os operários deviam mantê-la, a princípio, afastada
da dos que os excluíam; ao mesmo tempo, a cultura dominante acabava por
se tornar um modelo, e os trabalhadores tendiam a aspirá-la, em uma busca
de respeitabilidade. O tom parnasiano de muitos textos libertários vai
nesse sentido, e Foot, para explicar a contradição aparente entre a forma
do discurso do movimento operário e sua posição em relação a influências
"burguesas", tece uma bela comparação do estilo adotado pelos
trabalhadores anarquistas com o vulcão:
Os pontos discutidos acima indicam algumas das características dominantes da cultura operária anarquista nos primeiros anos deste século. As questões levantadas, entretanto, não se esgotam no que foi dito até aqui, nem são as únicas relevantes para o estudo da produção literária dos libertários. No interior da vasta literatura veiculada na imprensa operária paulistana, escolheram-se três textos publicados nos três primeiros anos do século XX que parecem abrir espaço para discussões de pontos bastante pertinentes para esse estudo. É importante salientar ainda que os anos de publicação dos textos a serem analisados e que são indicados aqui não são necessariamente os anos de sua produção. Datá-los, no contexto em que se está propondo essa discussão, significa tão somente entender quando eles estavam circulando na cidade de São Paulo e entre o público operário paulistano. Estabelecer autoria, momento da escrita é também questão secundária nessa análise, uma vez que se está privilegiando o local de sua publicação, ou seja, onde se acredita ocorrer o encontro desses textos com o leitor trabalhador: a imprensa operária paulistana, ou, mais precisamente, O Grito do Povo, Palestra Social e O Amigo do Povo, jornais que serviram de fonte para esta discussão. É interessante,
ainda, pensar em algumas questões sobre os gêneros literários no seio
da imprensa e do movimento operários. A escolha restrita aos textos em
prosa aqui feita não foi arbitrária, mas sim motivada pelo material encontrado
nos jornais a que se teve acesso. Da mesma forma, em Contos
anarquistas - Antologia da prosa libertária no Brasil (1901-1935) ,
a escolha dos autores pela prosa deveu-se ao fato, explicitado por eles,
de que, na literatura libertária, o gênero que melhor prestou-se às intenções
do movimento foram o conto e o relato breve, o qual incluia "a crônica,
o depoimento, as fábulas, os diálogos dramatizados, etc." .
Na narrativa libertária, o que se impunha era "o registro da opressão
cotidiana que transforma a palavra em instrumento de sobrevivência, experimentando
a narrativa curta na percepção do flagrante". Neste contexto,
apesar de se poderem encontrar alguns romances de temática social e libertária,
deve-se pensar antes nas narrativas mais breves como o gênero de maior
força da ficção anarquista. O conto "A estranguladora de seus filhos" , quando publicado n'O Grito do Povo - jornal operário paulistano cujo cabeçalho traz os escritos "Semanario Socialista Revolucionario" - não era inédito na imprensa proletária internacional, nem tão pouco brasileira. O texto é, na verdade, uma tradução de um conto publicado no Almanaque de la Questione Sociale, segundo se lê no próprio periódico brasileiro. Quanto à imprensa brasileira, o carioca O Protesto - Periódico Anarchista, de abril de 1900, já havia publicado "A estranguladora de seus filhos". Tal republicação - primeiramente de um país para outro, depois de uma cidade para outra - é bastante relevante para apontar o intercâmbio ou permuta de periódicos que acontecia dentro do movimento operário. Aliado a isso, percebe-se que se tem aí um texto que de alguma forma agradou à direção dos jornais e/ou ao público leitor destes. O tema do infanticídio presentado nele talvez esteja relacionado com o apreço que tais periódicos parecem dedicar ao conto. |