ANARQUISMO NA BIBLIOTECA-MUSEU DA REPUBLICA E RESISTENCIA
"Edgar Rodrigues - Pesquisador Libertário da História Social de Portugal e do Brasil"
23 de Abril de 2002
Conferência-debate em torno do Anarquismo e Movimentos Sociais na Obra de Edgar Rodrigues (*)
A sessão, muito concorrida, iniciou-se com a projecção de um video realizado por uma companheira historiadora, Rute, usando para cima de
nove horas de entrevista videogravada com o autor, Edgar Rodrigues, dos quais fez um pequeno vídeo com cerca de 40 min.
Os assuntos versavam sobre elementos da biografia do Autor, desde as circunstâncias da sua vinda para o Brasil, o seu encontro com Oiticica,
o grupo "Ação Directa" e Edgar Leuenroth, até ao esforço continuado para se instruir, se documentar, tudo isso em paralelo com o
seu trabalho na construção civil. Outras passagens do vídeo permitem-nos compreender o que Edgar entende
por Anarquismo, defendendo uma visão marcadamente social do mesmo ao dizer que " a resolução do problema social resolve o problema de todas
as restantes desigualdades". Edgar defende o anarquismo operário; recorda que este emergiu da obra de alfabetização dentro dos sindicatos,
fazendo da cada operário-anarquista um filósofo-autodidacta. Enfatiza a importância de cada activista ter a sua biblioteca própria e de estudar a sério todas as
questões relacionadas com a teoria e as experiências de lutas.
Aborda criticamente o anarquismo dos intelectuais. Refere temas como o patriotismo ou ainda o sentir (o que será a base da análise) quanto
esta sociedade deforma o ser humano.Seguiu-se uma charla em que José Maria Carvalho Ferreira, em nome da
Associação cultural "A Vida" (editora da revista "Utopia"), fez as apresentações dos elementos convidados e explicou o programa das
conferências agendadas (Lisboa e Porto). João Freire (director de "A Ideia" e um dos responsáveis da edição de várias obras de Edgar
Rodrigues em Portugal, com a defunta cooperativa "Sementeira") disse algumas palavras de contextualização da obra e intervenção de Edgar
Rodrigues no movimento de resistência ao fascismo em Portugal; o seu significado enquanto uma da poucas vozes libertárias que estava em
condições de denunciar o Portugal de Salazar, além do inestimável valor da sua pesquisa enquanto historiador do movimento social.
Nelson Tangerini (jornalista carioca que, entre outras publicações, escreve na "Letralivre" e n'"A Batalha") referiu o caso bastante recente
e miserável de discriminação, do silenciamento sistemático da obra de Edgar Rodrigues quer pelos média quer pelo próprio sindicato
dos escritores ao qual Edgar pertence, mas cuja revista ignora as publicações, não referindo sequer novas obras na sua revista (ao contrário
do que acontece com outros autores). Nelson considera que se trata de um caso típico de censura dos burocratas marxistas,
que se coligam para fazer a "lei do silêncio" em torno de vozes e autores incómodos (para eles, burocratas) como Edgar Rodrigues, visto
este ser simultaneamente alguém de origem operária, anarquista e com grande obra de pesquisa e divulgação, a qual põe a nu a falsificação
permanente da História que é levada a cabo pela maior parte das correntes marxistas.
Nos restantes momentos de perguntas dirigidas ao Autor homenageado, Edgar deu-me a impressão de alguém cheio de humanismo, não imbuído de
sua própria pessoa, muito preocupado com o anarquismo enquanto ética.
M.B.